A Fundação de Brasília
17 de Julho de 2008
"Ao falar-vos, estudantes congregados pelos XI de Agosto e XI de Maio, dirijo-me também a toda a mocidade do Brasil
– e o faço com a consciência de que estou cumprindo o dever de convocar-vos, de prevenir-vos, de procurar a
vossa adesão para esta marcha rumo ao oeste, na conquista que neste momento principia e deixa de ser imagem
oratória, frase de efeito, promessa vã, para constituir-se, na realidade, em algo de concreto, de palpável: a continuação de
uma viagem que se iniciou com a chegada da frota de Cabral à Bahia, que prosseguiu com Mem de Sá para o Rio de
Janeiro, que se alargou imponente na caminhada das Bandeiras e que agora, para alta e imerecida honra de minha
vida, retomo com o pensamento na integração do Brasil em si mesmo para posse do povo brasileiro do seu próprio e
imenso território.
Não, não poderia deixar de falar-vos, jovens de todos os quadrantes da pátria, nem ir avante ns resoluções para a
fundação da nova capital do Brasil, em obediência a um dispositivo constitucional, sem me dirigir a vós, atentos ao que vai
resultar de um ato político de tamanha envergadura.
Interessados particularmente estais vós, por tratar-se do advento de uma nova era que irá abrir-se ao implantar-se no
coração do Brasil uma cidade que centralizará a irradiação da nossa vida política. Vós contemplareis de mais perto, vivereis,
da maneira mais profunda, soberba epopéia da ocupação do nosso país. Sereis mais diretamente beneficiados, pelo
transformar de um Brasil entranhado na sua própria terra, do que os homens de minha geração, aos quais não caberá
privilégio outro, e assim mesmo se assistidos pela proteção divina, que o de avistar de longe, de divisar à distância o novo
Brasil, o Brasil enfim retificado, o Brasil instalado no seu interior, o Brasil colocado onde sempre deverá estar.
Dirijo-me agora particularmente a vós, estudantes de São Paulo. Perdoai-me a imodéstia, mas não há que ocultar a
realidade: o papel histórico que o meu governo está representando com o prosseguimento da viagem da nacionalidade
até Brasília, o que se está fazendo, o que tenha a honra de influir para que seja executado nesta hora, é continuar o
feito das vossas bandeiras, retomando o caminho heroicamente percorrido pelos vossos desbravadores, é estender o
Brasil, com o poder da técnica do mundo de hoje, até onde o conduziu o vosso Anhangüera.
Sou um homem das Minas Gerais. E profundamente comovido, com o pensamento no passado, como que a ouvir os
passos dos plantadores de cidades nas Alterosas, ergo-me para anunciar convosco que recomeçou a Era das Bandeiras.
Quero proclamar convosco que já não podemos estar parados nas proximidades do mar, agarrados às praias,
espremidos na área litorânea; que já não podemos permanecer reunidos em alguns núcleos densos de população,
quando a maior parte de nosso país está vazia, inaproveitada, intrafegável, com as suas riquezas a jazer latentes.
Já nos cansamos todos de críticas estéreis, de palavrório sentencioso, mas inexpressivo, de círculos restritos por nossas
próprias mãos traçados, dentro dos quais nos debatemos prisioneiros.
Já nos cansamos todos de críticas sombrias sobre o nosso futuro, de abismos que eternamente nos ameaçam tragar, de
lamentações, de gritos de agouro, de imaginações, temores – quando tudo reclama o nosso trabalho, o nosso
entusiasmo, o nosso ânimo, quando nos obrigamos a provar que somos um povo digno de ter recebido o patrimônio
imenso desta nossa terra variada, rica de aspectos, prodigiosa nas suas dissemelhanças.
Brasília Poética
http://web.brasiliapoetica.blog.br/site _PDF_POWERED _PDF_GENERATED 21 December, 2008, 20:20
Chegou a hora de falar ao país, de coração aberto, de dizer aos brasileiros que assumi o governo, não para aparar
pequenos ângulos, mas para trabalhar sem esmorecimento, a fim de que esta pátria obedeça ao chamado de grande
nação.
Temos de levar o Brasil para a frente, e ele irá para a frente. Temos de fazer com que o nosso povo ocupe as suas
terras; são nossas as terras do Brasil, mas para que as utilizemos, nós e os que estiverem desejosos de vir respirar aqui,
compartilhando da revolução do nosso desenvolvimento intelectual e material.
Não podem mais a direção política, o governo, as classes que comandam, deixar de acompanhar o ritmo de crescimento
desta nação. Não é compreensível, nem há mais justificativa para o divórcio entre o surto expansionista do Brasil e a
mentalidade burocrática, rotineira, estreita, que se mantém numa oposição contínua a essa arrancada que vai
aumentando de potencialidade todos os dias, mas um pouco desordenada e confusa.
Não é possível que a expansão nacional se processe indirigida, sob as vistas indiferentes do governo.
A nação e o governo tem de marchar unidos, solidários, porque o governo deve ser a expressão da vontade do que
constitui a nação. Já provou o Brasil, e de forma evidente, o de que é capaz. E o provou por si mesmo, com noção lúcida
e firmeza.
As nações, como acontece com os seres humanos, são sempre habitadas por forças positivas e negativas, por boas e
más inclinações. Onde há vida, há duelo entre o que deseja afirmar-se e o que se deixe vencer pela impassividade.
A mocidade é que comanda as forças vitais, é que exige que tudo se elabore sob o signo da esperança.
Para a mocidade vale a pena criar, afirmar, crescer, desenvolver-se, triunfar dos obstáculos. Sem que se manifeste e
atue o espírito da mocidade, não será possível transportar a capital da República para Brasília, operação indispensável
sob todos os aspectos de natureza moral ou simplesmente práticos. Só a mocidade tem resistência para romper com
os interesses subreptícios, com o comodismo inerte, com o pessimismo envenenador, com a ironia malévola. Sei que as
dificuldades de hoje são pelo menos tão grandes quanto as de ontem, as experimentadas pelos que chegaram à selva
brasileira atrás do ouro e das pedras preciosas: um Manoel Correa, um Fernão Dias Paes, os dois Bartolomeu Bueno,
pai e filho.
Nos dias que correm se avolumam as incompreensões, os dissabores, as lutas e a tendência para o aniquilamento de
tudo o que é autêntico. Mas, em compensação, os meios materiais facilitam a tarefa. Em poucas horas de avião os
pontos mais longínquos são atingidos. Boas ou más, há sempre estradas de penetração para o nosso interior. Os rios
estão mais conhecidos. O viajante desta hora já não é um ente, com os seus poucos companheiros, abandonado, mas
impávido, enfrentando o demônio da febre, o desconhecimento da terra, os ataques de inimigos invisíveis, e visíveis. Mas
havia no bandeirante a noção de que devia obedecer exclusivamente a seu desejo, a seu ímpeto; e que os recursos para
a luta se achavam às suas próprias mãos, na sua ambição.
Brasília Poética
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Não o torturavam as perplexidades e dúvidas naturais dos que praticam gestos que, além de seu próprio destino,
envolvem o destino da própria pátria, cuja guarda e direção lhes foram confiadas. Deus sabe que lutas íntimas leva essa
decisão àquele que tem a governança do país. Acrescentem-se a elas razões e argumentos da empedernida prudência, os
conselhos dos que descendem em linha reta daquele personagem camoniano, o velho do Restelo, que advertia aos
navegantes pedindo-lhes que não partissem para as perigosas derrotas, e os maldizia pelas conquistas que pretendiam
fazer no mar e em paragens distantes, quando os problemas da terra eram já numerosos e difíceis! As mesmas
advertências já as tenho ouvido!
Por que às incontáveis e tormentosas questões que nos assoberbam, mais esta vem somar-se, a de transplantar a
capital de um país? Por que, não havendo capacidade de investimento para empresas bem menores, tentar-se a grande
mudança? Que se fará do Rio de Janeiro e dos seus habitantes, sobretudo dos funcionários federais?
Essas e outras indagações se fazem continuamente. Grande parte delas não procede. Para todos os problemas
suscitados se estuda uma solução plausível. O que se impõe, porém, é o exame dos benefícios, das vantagens. O saldo é
extraordinariamente favorável.
Em primeiro lugar, não há quem duvide de que o Brasil será um outro país com o deslocamento do centro de decisões
para uma zona quase despovoada, mas com todos os requisitos para exercer o seu papel de capital da República.
O cumprimento dessa obrigação é um dos mandamentos constitucionais. Coube-me o papel, que não posso deixar de
reconhecer histórico, de decidir que chegara a oportunidade de se fazer obedecido. Cada dia que se passar, mais e mais
dificultosa se irá tornando a transplantação. Já nesta altura, os óbices se apresentam variados: amanhã, se
continuássemos a achar a resolução, talvez já fosse tarde e fatal para o destino do Brasil.
Não havia, portanto, hesitação possível. Amadurecera, em mim, a certeza de que não haverá o grande Brasil que
sonhamos, sem que a cabeça da pátria esteja situada no seu devido lugar. Não somos ainda um país milenário, com
formas imutáveis, acabado, esculpido, nítido, lógico e definitivo, mas uma nação que todos os dias é modelada. Já nos
apropriamos de quase todo o litoral e suas proximidades; já nos instalamos ao longo das praias. Mas estas conquistas
nem chegaram para fazer de nós a grande pátria em que os céticos não crêem. Não podemos consentir que o Brasil
vá continuando a crescer em tão alarmante desigualdade.
A fundação de Brasília é a fundação do equilíbrio da nação brasileira. Já vos disse, creio, que não se trata apenas de uma
retificação puramente geográfica. O choque da mudança operará uma transformação necessária e urgente na
mentalidade, no modo de sentir e conceber dos brasileiros, despertando-os, tornando-os mais atraídos pelo
empreendimento privado, inspirando-lhes um desejo maior e mais acentuado de melhorar os índices de nossa
produtividade. O contato com os problemas, as emoções de um mundo a vencer, tudo isso atuará de maneira saudável
na alma nacional, insuflará em todo o país o mesmo espírito que fez de São Paulo o que São Paulo é hoje.
Não há país que se desenvolva sem a ambição de seus filhos. Não haverá grande Brasil sem que a ambição mova ao
trabalho os homens capazes.
Tudo o que temos de real é fruto da ambição. Não estivessem dela imbuídos os velhos paulistas, e outro teria sido este
país. Não fossem ambiciosos os antepassados deste potentíssimo Estado, e teríamos ficado contidos na linha Cananéia-
Belém. Benditas, pois, as conquistas dos heróis legendários que esperam um Homero, um Virgílio ou um Camões para
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fazê-los ressuscitar e caminhar de novo pelas matas inóspitas e desconhecidas.
Se vos posso fazer um apelo, mudancistas, como vós mesmos vos intitulais; se algo posso desejar de vós, concito-vos a
que sejais ambiciosos, a que tenhais orgulho de vossa ambição, sacratíssima, nobilíssima e assaz justa, ambição de
promover a grandeza do Brasil através do desbravamento de seu interior.
Não me pejo de pedir-vos ajuda. Presidente da República, solicito o apoio de vossa energia, de vossa esperança, de
vossa capacidade de sentir e compreender esta nação. Divulgai, explicai, comunicai a todo o país o que desejamos fazer,
o que faremos. Sacudi esta nação com a vossa fé e a mim mesmo auxiliai-me a suportar esta luta que será tão mais
violenta quanto mais nos negativos e descrentes se for tornando claro o entendimento de que não estamos falando em
vão."
Mensagem do Presidente Juscelino Kubitschek aos participantes da "Primeira Semana Nacional Mudancista", São
Paulo, 1957.
"Ao falar-vos, estudantes congregados pelos XI de Agosto e XI de Maio, dirijo-me também a toda a mocidade do Brasil
– e o faço com a consciência de que estou cumprindo o dever de convocar-vos, de prevenir-vos, de procurar a
vossa adesão para esta marcha rumo ao oeste, na conquista que neste momento principia e deixa de ser imagem
oratória, frase de efeito, promessa vã, para constituir-se, na realidade, em algo de concreto, de palpável: a continuação de
uma viagem que se iniciou com a chegada da frota de Cabral à Bahia, que prosseguiu com Mem de Sá para o Rio de
Janeiro, que se alargou imponente na caminhada das Bandeiras e que agora, para alta e imerecida honra de minha
vida, retomo com o pensamento na integração do Brasil em si mesmo para posse do povo brasileiro do seu próprio e
imenso território.
Não, não poderia deixar de falar-vos, jovens de todos os quadrantes da pátria, nem ir avante ns resoluções para a
fundação da nova capital do Brasil, em obediência a um dispositivo constitucional, sem me dirigir a vós, atentos ao que vai
resultar de um ato político de tamanha envergadura.
Interessados particularmente estais vós, por tratar-se do advento de uma nova era que irá abrir-se ao implantar-se no
coração do Brasil uma cidade que centralizará a irradiação da nossa vida política. Vós contemplareis de mais perto, vivereis,
da maneira mais profunda, soberba epopéia da ocupação do nosso país. Sereis mais diretamente beneficiados, pelo
transformar de um Brasil entranhado na sua própria terra, do que os homens de minha geração, aos quais não caberá
privilégio outro, e assim mesmo se assistidos pela proteção divina, que o de avistar de longe, de divisar à distância o novo
Brasil, o Brasil enfim retificado, o Brasil instalado no seu interior, o Brasil colocado onde sempre deverá estar.
Dirijo-me agora particularmente a vós, estudantes de São Paulo. Perdoai-me a imodéstia, mas não há que ocultar a
realidade: o papel histórico que o meu governo está representando com o prosseguimento da viagem da nacionalidade
até Brasília, o que se está fazendo, o que tenha a honra de influir para que seja executado nesta hora, é continuar o
feito das vossas bandeiras, retomando o caminho heroicamente percorrido pelos vossos desbravadores, é estender o
Brasil, com o poder da técnica do mundo de hoje, até onde o conduziu o vosso Anhangüera.
Sou um homem das Minas Gerais. E profundamente comovido, com o pensamento no passado, como que a ouvir os
passos dos plantadores de cidades nas Alterosas, ergo-me para anunciar convosco que recomeçou a Era das Bandeiras.
Quero proclamar convosco que já não podemos estar parados nas proximidades do mar, agarrados às praias,
espremidos na área litorânea; que já não podemos permanecer reunidos em alguns núcleos densos de população,
quando a maior parte de nosso país está vazia, inaproveitada, intrafegável, com as suas riquezas a jazer latentes.
Já nos cansamos todos de críticas estéreis, de palavrório sentencioso, mas inexpressivo, de círculos restritos por nossas
próprias mãos traçados, dentro dos quais nos debatemos prisioneiros.
Já nos cansamos todos de críticas sombrias sobre o nosso futuro, de abismos que eternamente nos ameaçam tragar, de
lamentações, de gritos de agouro, de imaginações, temores – quando tudo reclama o nosso trabalho, o nosso
entusiasmo, o nosso ânimo, quando nos obrigamos a provar que somos um povo digno de ter recebido o patrimônio
imenso desta nossa terra variada, rica de aspectos, prodigiosa nas suas dissemelhanças.
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Chegou a hora de falar ao país, de coração aberto, de dizer aos brasileiros que assumi o governo, não para aparar
pequenos ângulos, mas para trabalhar sem esmorecimento, a fim de que esta pátria obedeça ao chamado de grande
nação.
Temos de levar o Brasil para a frente, e ele irá para a frente. Temos de fazer com que o nosso povo ocupe as suas
terras; são nossas as terras do Brasil, mas para que as utilizemos, nós e os que estiverem desejosos de vir respirar aqui,
compartilhando da revolução do nosso desenvolvimento intelectual e material.
Não podem mais a direção política, o governo, as classes que comandam, deixar de acompanhar o ritmo de crescimento
desta nação. Não é compreensível, nem há mais justificativa para o divórcio entre o surto expansionista do Brasil e a
mentalidade burocrática, rotineira, estreita, que se mantém numa oposição contínua a essa arrancada que vai
aumentando de potencialidade todos os dias, mas um pouco desordenada e confusa.
Não é possível que a expansão nacional se processe indirigida, sob as vistas indiferentes do governo.
A nação e o governo tem de marchar unidos, solidários, porque o governo deve ser a expressão da vontade do que
constitui a nação. Já provou o Brasil, e de forma evidente, o de que é capaz. E o provou por si mesmo, com noção lúcida
e firmeza.
As nações, como acontece com os seres humanos, são sempre habitadas por forças positivas e negativas, por boas e
más inclinações. Onde há vida, há duelo entre o que deseja afirmar-se e o que se deixe vencer pela impassividade.
A mocidade é que comanda as forças vitais, é que exige que tudo se elabore sob o signo da esperança.
Para a mocidade vale a pena criar, afirmar, crescer, desenvolver-se, triunfar dos obstáculos. Sem que se manifeste e
atue o espírito da mocidade, não será possível transportar a capital da República para Brasília, operação indispensável
sob todos os aspectos de natureza moral ou simplesmente práticos. Só a mocidade tem resistência para romper com
os interesses subreptícios, com o comodismo inerte, com o pessimismo envenenador, com a ironia malévola. Sei que as
dificuldades de hoje são pelo menos tão grandes quanto as de ontem, as experimentadas pelos que chegaram à selva
brasileira atrás do ouro e das pedras preciosas: um Manoel Correa, um Fernão Dias Paes, os dois Bartolomeu Bueno,
pai e filho.
Nos dias que correm se avolumam as incompreensões, os dissabores, as lutas e a tendência para o aniquilamento de
tudo o que é autêntico. Mas, em compensação, os meios materiais facilitam a tarefa. Em poucas horas de avião os
pontos mais longínquos são atingidos. Boas ou más, há sempre estradas de penetração para o nosso interior. Os rios
estão mais conhecidos. O viajante desta hora já não é um ente, com os seus poucos companheiros, abandonado, mas
impávido, enfrentando o demônio da febre, o desconhecimento da terra, os ataques de inimigos invisíveis, e visíveis. Mas
havia no bandeirante a noção de que devia obedecer exclusivamente a seu desejo, a seu ímpeto; e que os recursos para
a luta se achavam às suas próprias mãos, na sua ambição.
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Não o torturavam as perplexidades e dúvidas naturais dos que praticam gestos que, além de seu próprio destino,
envolvem o destino da própria pátria, cuja guarda e direção lhes foram confiadas. Deus sabe que lutas íntimas leva essa
decisão àquele que tem a governança do país. Acrescentem-se a elas razões e argumentos da empedernida prudência, os
conselhos dos que descendem em linha reta daquele personagem camoniano, o velho do Restelo, que advertia aos
navegantes pedindo-lhes que não partissem para as perigosas derrotas, e os maldizia pelas conquistas que pretendiam
fazer no mar e em paragens distantes, quando os problemas da terra eram já numerosos e difíceis! As mesmas
advertências já as tenho ouvido!
Por que às incontáveis e tormentosas questões que nos assoberbam, mais esta vem somar-se, a de transplantar a
capital de um país? Por que, não havendo capacidade de investimento para empresas bem menores, tentar-se a grande
mudança? Que se fará do Rio de Janeiro e dos seus habitantes, sobretudo dos funcionários federais?
Essas e outras indagações se fazem continuamente. Grande parte delas não procede. Para todos os problemas
suscitados se estuda uma solução plausível. O que se impõe, porém, é o exame dos benefícios, das vantagens. O saldo é
extraordinariamente favorável.
Em primeiro lugar, não há quem duvide de que o Brasil será um outro país com o deslocamento do centro de decisões
para uma zona quase despovoada, mas com todos os requisitos para exercer o seu papel de capital da República.
O cumprimento dessa obrigação é um dos mandamentos constitucionais. Coube-me o papel, que não posso deixar de
reconhecer histórico, de decidir que chegara a oportunidade de se fazer obedecido. Cada dia que se passar, mais e mais
dificultosa se irá tornando a transplantação. Já nesta altura, os óbices se apresentam variados: amanhã, se
continuássemos a achar a resolução, talvez já fosse tarde e fatal para o destino do Brasil.
Não havia, portanto, hesitação possível. Amadurecera, em mim, a certeza de que não haverá o grande Brasil que
sonhamos, sem que a cabeça da pátria esteja situada no seu devido lugar. Não somos ainda um país milenário, com
formas imutáveis, acabado, esculpido, nítido, lógico e definitivo, mas uma nação que todos os dias é modelada. Já nos
apropriamos de quase todo o litoral e suas proximidades; já nos instalamos ao longo das praias. Mas estas conquistas
nem chegaram para fazer de nós a grande pátria em que os céticos não crêem. Não podemos consentir que o Brasil
vá continuando a crescer em tão alarmante desigualdade.
A fundação de Brasília é a fundação do equilíbrio da nação brasileira. Já vos disse, creio, que não se trata apenas de uma
retificação puramente geográfica. O choque da mudança operará uma transformação necessária e urgente na
mentalidade, no modo de sentir e conceber dos brasileiros, despertando-os, tornando-os mais atraídos pelo
empreendimento privado, inspirando-lhes um desejo maior e mais acentuado de melhorar os índices de nossa
produtividade. O contato com os problemas, as emoções de um mundo a vencer, tudo isso atuará de maneira saudável
na alma nacional, insuflará em todo o país o mesmo espírito que fez de São Paulo o que São Paulo é hoje.
Não há país que se desenvolva sem a ambição de seus filhos. Não haverá grande Brasil sem que a ambição mova ao
trabalho os homens capazes.
Tudo o que temos de real é fruto da ambição. Não estivessem dela imbuídos os velhos paulistas, e outro teria sido este
país. Não fossem ambiciosos os antepassados deste potentíssimo Estado, e teríamos ficado contidos na linha Cananéia-
Belém. Benditas, pois, as conquistas dos heróis legendários que esperam um Homero, um Virgílio ou um Camões para
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fazê-los ressuscitar e caminhar de novo pelas matas inóspitas e desconhecidas.
Se vos posso fazer um apelo, mudancistas, como vós mesmos vos intitulais; se algo posso desejar de vós, concito-vos a
que sejais ambiciosos, a que tenhais orgulho de vossa ambição, sacratíssima, nobilíssima e assaz justa, ambição de
promover a grandeza do Brasil através do desbravamento de seu interior.
Não me pejo de pedir-vos ajuda. Presidente da República, solicito o apoio de vossa energia, de vossa esperança, de
vossa capacidade de sentir e compreender esta nação. Divulgai, explicai, comunicai a todo o país o que desejamos fazer,
o que faremos. Sacudi esta nação com a vossa fé e a mim mesmo auxiliai-me a suportar esta luta que será tão mais
violenta quanto mais nos negativos e descrentes se for tornando claro o entendimento de que não estamos falando em
vão."
Mensagem do Presidente Juscelino Kubitschek aos participantes da "Primeira Semana Nacional Mudancista", São
Paulo, 1957.

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